A Estética da Imundície
Meio Ambiente

A Estética da Imundície

Os antigos gregos referiam-se ao universo que os cercava como COSMOS, palavra que envolvia profunda veneração pela surpreendente beleza do arquipélago em que viviam, formado por milhares de ilhas cercadas pelo azul do Mar Egeu. Esta palavra até hoje está presente em nosso vocabulário, significando belo, bonito, como em produto cosmético, que traz a beleza. Com o mesmo sentido, os romanos usavam a palavra MUNDO, e o seu oposto era o IMUNDO, que retratava o que é feio, o desprezível, o mau-cheiroso, o podre, o lixo. Esta palavra também se faz presente em nosso vocabulário, e gerou imundície, substantivo coletivo para tudo que é imundo.

A sujeira sob forma de acúmulos de lixo despejado pela população começou a gerar desconforto com a formação das primeiras cidades, há cerca de 8.000 anos A.C. Várias políticas públicas eram usadas para controlar os detritos, e na Itália medieval algumas cidades contratavam porcos para percorrer as ruas e se alimentar com eles, e na França, na cidade de Bordeaux, os monturos nas cercanias da cidade eram tão altos que figuravam como risco à segurança da cidade, pois os inimigos poderiam usá-los para escalar os muros que a protegiam.

No Brasil colonial, as coisas eram similares, no Rio valas de esgoto corriam a céu aberto, animais eram vistos nas ruas, ratos infestavam a cidade, os habitantes atiravam lixo pela janela, e, à noite, por elas limpavam os penicos da casa. Os mais educados gritavam antes “Arreda, ioiô, que lá vai cocô”. Este hábito só foi abolido com a chegada da corte portuguesa ao Brasil, em 1808. O lixo era então amontoado e, à noite era levado por escravos e jogado em valas, terrenos vagos e praias da cidade. Em 1876 foi enfim formado um sistema de coleta de lixo, pela empresa francesa (Comlurb) de Aleixo Gary, cujo nome entrou para a História para denominar os profissionais deste ramo.  

Somente no séc XVIII criaram leis para cuidados de resíduos nos espaços públicos

A partir do século XVIII, começaram a aparecer mecanismos de maior cuidado com o espaço público, como códigos municipais, leis, aparatos de fiscalização, instituições, multas, vigilância policial, que ajudaram muito a mudança de agir da população, além do aumento geral de educação e consciência do povo em geral. Também foi importante a criação da ecologia como ciência que estuda a relação entre os seres vivos e seu ambiente, por Ernst Haeckel, em 1869. Com ela, as pessoas passaram a ver a natureza não como um armazém a ser saqueado, mas como um depositório de infinitas possibilidades de aprendizado, deleite, divertimento e inspiração.

A valorização dos espaços públicos e a veneração da população por eles cresceu de maneira assombrosa, principalmente em países e cidades onde políticas com este fim foram instituídas, e multas e até penas de prisão foram votadas para a punição dos sugismundos pouco afeitos aos deleites de belas praças e jardins, e à limpeza pública em geral.

Hoje, em várias cidades americanas, o cidadão pode ser preso por sujar propriedade pública; em Capetown na África do Sul, a multa é de US$ 40 a 800 e a pena pelo mesmo motivo pode chegar a 2 anos de detenção; em Dublin a multa vai de 150 euros a 3.000; em Miami a multa pode chegar a US$ 7.750. Em Singapura, considerada a cidade mais limpa do mundo, a multa varia de 235 a 3.875 euros para os lambões.

No Japão, em Tóquio, o amor à cidade e seus parques é uma extensão do patriotismo, e o próprio cidadão é responsável pela vigilância na cidade onde não existem garis, as pessoas guardam seu lixo no bolso ou em pequenas sacolas para dispô-lo de maneira apropriada em casa. Para eles, cada metro quadrado das cidades, de seus parques e de seus jardins é o solo japonês, depositário de milênios de cultura, de história, de tradições únicas, e de heroísmo de seu povo, e de uma natureza única.

No Brasil, só em 2010, com a lei Política Nacional de Resíduos Sólidos, tenta-se sair da maneira medieval de tratar o lixo e seus depósitos. O prazo dado pela norma era até 3 de Agosto de 2014 para o fim dos lixões, mas prefeitos lambões se mobilizaram e pediram o seu adiamento, e a população ainda tem que conviver, em pleno século XXI, com 2.000 lixões espalhados pelo país. Segundo a Associação Brasileira de Limpeza Pública (ABRELPE), 40% de todo o lixo produzido no país não tem destinação adequada.

Em Governador Valadares (MG), iniciativas pontuais, como a rede de ciclovias, a coleta seletiva de lixo e o Parque Natural dão uma tintura de modernidade e preocupação ambiental à cidade, mas seus cidadãos ainda têm que conviver com praças sem iluminação e sem lixeiras, carros de som que atazanam a população vomitando seus decibéis sem nenhum controle, carroças trafegando pelo centro, animais de grande porte pastando tranquilamente nas avenidas e na frente da Prefeitura, espetáculos pirotécnicos à noite em bairros residenciais (e próximos a postos de combustíveis) que nos remetem de volta à Idade das Trevas.

A coleta seletiva de lixo dá uma ideia da postura dos seus habitantes frente à limpeza pública; menos de 10% das residências separam seu lixo de maneira apropriada. As desculpas variam, desde a moradora de mentalidade primitiva que acha que meio ambiente é sua casa, e varre o lixo para a calçada, até as que alegam nunca ter tempo para fazer a separação, como se fosse muito demorado colocar o lixo neste ou naquele recipiente. Há também as pessoas com uma percepção leviana de religiosidade, que sempre vão aos seus templos, mas esquecem de ajudar, com o seu lixo reciclável, os bravos trabalhadores da Asconavi, que com ele tentam levar uma vida digna.

As autoridades municipais colaboram com o caos, pois ninguém é multado ou advertido, e a lambança não só continua, como é homenageada com monumentos; a montante da ponte da Ilha, a uns 100 m dela, naquele bairro, dentro do rio perto da margem, há uma pedra e, sobre ela, uma televisão antiga. O rio, humilhado, não conseguiu removê-la, e ela lá permanece, altiva. Mas o rio continua aguardando, há meses, um gesto libertador que, como a chuva, restaure sua dignidade.

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